Editoriais


ENTRE DOIS FOGOS

11/09/2018

ENTRE DOIS FOGOS

Existem temas que são espinhosos, o que nos leva a não querer abordá-los. Não obstante essa dificuldade, há que se escrever sobre eles, pelo menos para se jogar luz sobre os mesmos e propiciar uma reflexão. No primeiro domingo deste mês, fomos abatidos pelas chamas que literalmente destruíram o Museu Nacional, no Rio de Janeiro e que também carbonizaram nossa memória histórica e muito da frágil cultura nacional. Mas a chama da esperança, ainda que tênue, está acesa e há de nos motivar a crer que, das cinzas, poderão emergir soluções.

Desde então, dados sobre o acervo perdido foram divulgados fartamente pela mídia, não cabendo, pois, repeti-los aqui. Curiosamente, só assim muitos ficaram sabendo da existência dessa emblemática instituição e da importância e valor inestimável das peças que as labaredas lamberam rapidamente para tristeza e desolação de muitos.

A tragédia sensibilizou muitas pessoas, quer as que trabalhavam no Museu, quer os técnicos e especialistas do Brasil e do mundo. Mas, uma grande parcela dos cidadãos comuns (entre os quais me incluo) cariocas ou não tinham uma relação afetiva com esse lugar. Ir à Quinta da Boa Vista para momentos de lazer e descontração sempre incluía uma visita a esse centro de cultura e de aprendizado. Foi assim com gerações. Considero-me um privilegiado por ter percorrido suas instalações desde menino e ter levado meus filhos também. Lamentavelmente, meu neto não poderá usufruir de momentos como esses.

Nessas ocasiões, é comum procurar culpados, cobrar responsabilidades, dizer-se que o ocorrido estava previsto... Entretanto, acima de tudo pairam a incúria das autoridades, a falta de atenção com a cultura e de compromisso com a memória nacional que são antigos neste país. Ouvimos falar de liberação de verbas para reforma do Museu, de medidas de prevenção de acidentes em outros museus. Reuniões foram feitas. Até os candidatos à presidência foram cobrados quanto a propostas em seus programas de governo sobre esse tema. A verdade é que o fato manchou ainda mais nossa imagem junto à comunidade internacional. Que país é este que não impede que o fogo destrua séculos de seu patrimônio histórico e científico?

Mais do que nos culpar ou condenar, assistimos a uma onda de solidariedade de diversos países e órgãos que pode se concretizar em doações de peças para repor as que se perderam, assistência técnica e recursos financeiros. Que esses esforços, aliados aos dos abnegados especialistas brasileiros, sirvam para imprimir novos rumos ao tratamento do que nos é tão caro: nosso patrimônio histórico, artístico, científico e cultural.   Debeladas as chamas da destruição, mantém-se viva a chama da esperança que não deixará que caiam no esquecimento esse incêndio e suas reais causas e consequências e nos permitirá crer que nem tudo está perdido.

Prof: Julio Carlos de Freitas Cordeiro